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quinta-feira, 28 de novembro de 2013





A Última Página da Enciclopédia



E lá foi Nilton Santos encontrar tantos outros santos. Luto ou agradecimento? Pesar, pesado ou apenas contente? Mesmo não sendo do seu tempo, agradeço. Agradeço de coração, imerso na estrela que te conduzia. E tenho certeza, continuará conduzindo. Tu és eterno, monstro. Teus concorrentes eram apenas laterais ou pontas abusados. Mas não tu. Tu eras gênio, tu eras a classe operária intelectual, tu eras o futebol.
No último adeus compreendi que imortal não é o burocrata que serve a Academia Brasileira de Letras. De fato, imortal é, simplesmente, aquele que não morre. Aquela bandeira esticada sobre o caixão me confirmou isso. Sarney morrerá, mas Nilton Santos seguirá eterno, eu afirmo. Afinal, do que valem letras soltas perto de uma enciclopédia completa ou de apenas uma estrela solitária?
Junto contigo foram histórias e gerações de jogadores romanticamente ingênuos. Tão ingênuos que bobos eram os outros. O futebol nunca mais foi o mesmo depois de ti. Ou devo dizer, o futebol jamais será o mesmo depois de ti. Aceitar o trabalho como lar e dali construir família e amigos era, e continua sendo, para poucos. Pouquíssimos. Para raros, como tudo no Botafogo. Para os monstros, apenas, como tudo no Botafogo.
Se Garrincha (teu irmão, compadre, afilhado e filho, porque não?) cumpriu perfeitamente o papel de Nietzsche dos gramados, saiba que tu foste a melhor interpretação futebolística de Hegel. E jamais cansarei de dizer, obrigado por tudo. O apelido não lhe fora dado por estatísticas superficiais ou por apenas seus dotes de carpintaria. Fora lhe concedidos, principalmente, por ter sido o monstro da própria enciclopédia.
Tua nareba banhada pelo bigode cinzento ainda é imitada nas lojas de mágica. Era apenas pôr uns óculos naquela face que ninguém acreditaria que tais genéticas fossem originais. Punha um destro na lateral esquerda e ninguém acreditaria que tal genética fosse original. Punha um malandro de joelhos enviesados para jogar que ninguém acreditaria que tal genética servisse pro esporte. Ninguém, menos tu, monstro. Ou melhor, ninguém antes de ti. Tu eras diferente dos demais.
Afirmo não estar triste pelo seu falecimento. Desculpa, meu velho, mas tu não eras humano para chegar ao ponto de falecer.
Incansável, sigo: Muito obrigado.


terça-feira, 18 de setembro de 2012




Porque o Botafogo contribuiu para a Tropicália?


  Fui abduzido a assistir “Tropicália” e posso afirmar-lhes com toda a segurança que este é um baita documentário. Não apenas por seus depoimentos e vídeos históricos, mas principalmente por ter uma estética arrojada e uma narrativa envolvente. Um filme emocionante para todos aqueles que veem no movimento um sopro de liberdade artística misturada com uma inalação de tudo o que pode ser considerado tenro, bento, severo, divino e maravilhoso.
       
     Porém, não pude deixar de sentir falta, vendo tantos meios de campos, dos artistas da estrela solitária. Afinal, futebol também é uma manifestação cultural. Afirmo, sem desvios freudianos, que a bandeira gloriosa é um símbolo de marginalidade e heroísmo muito mais eloquente que qualquer obra do Oiticica. E meus caros, o Solar da Fossa era vizinho de General Severiano, e isto não foi conjecturado coincidentemente. Ou foi? Sigo afirmando que nenhum outro clube no mundo pode ser considerado tão tropicalista quanto o Botafogo. Por quê?

 Prezados amigos, junte a malandragem de um Garrincha, a inteligência de um Gérson, uma poética retórica de um Neném Prancha, um protestantismo de um Afonsinho e um rancor, eternamente juvenil, de um João Saldanha que você terá o mais puro conjunto de insanidade já visto. Eles são os verdadeiros mutantes alquimistas do cosmo tropical latino-americano. Sem estes, envoltos em um manto místico de proteção amedrontadora, os músicos, cineastas e artistas plásticos não teriam inspiração criativa nem para ir até a padaria.

   Assim como o movimento sempre foi contrário ao rótulo de MPB, nós também sempre haveremos de ser contrários ao rótulo de time popular. Para coroar esta didática, hoje completam exatos quarenta e quatro anos da histórica final da Taça Guanabara. Aquela que fez adormecer a maioria dos carentes; E que fez enlouquecer os bons da cabeça e sedentos do pé.

        Salve a bossa, sa, sa!
        Salve a Ypióca, ca, ca, ca, ca!